Ocidente made in China
Clonar os países mais ricos do mundo em seu território. É a mais nova receita chinesa para construir cidades ao gosto das empresas estrangeiras e, mais ainda, dos próprios chineses
por Maurício Horta


Sinos badalam na torre de uma igreja gótica. Mas não são sinos. A melodia vem de alto-falantes instalados lá em cima, com um timbre de secretária eletrônica. Sigo em frente até a curva da viela, onde as únicas pessoas à vista são estátuas de bronze e guardas de segurança vestidos de vermelho. Lá, um prédio de estilo georgiano, do século 18, surge em frente a um outro, vitoriano, do século 19. Dentro deles, nada, apesar das placas “Record Shop – classical jass (sic)”, ou “Public House – open all day – excllent (sic) hot and cold food”. Bate-se nas paredes e, no lugar do som seco do mármore ou do concreto, um ruído oco, redondo, falso. Made in China.
Thames Town fica em Songjiang New City, um município feito para abrigar 300 mil habitantes, construído 30 quilômetros a sudeste do centro de Xangai. Até 2020, 400 novas cidades deverão surgir na China para abrigar 300 milhões de pessoas que deixarão o campo para embarcar na China moderna. Mas Songjiang New City não é para elas. Seguindo a onda de países mais desenvolvidos, as grandes cidades da China estão ganhando cada vez mais subúrbios, para que os novos-ricos locais e os homens de negócio estrangeiros gastem nas calmas periferias as fortunas que ganham no centro.
Nesse país-canteiro-de-obras, onde a indústria da construção civil responde por 7% do PIB, condomínios fechados não bastam – são necessárias novas cidades inteiras. Em 2001, o governo de Xangai lançou o programa One City, Nine Towns (“Uma Cidade, 9 Municípios”) com o objetivo de aliviar a pressão populacional do centro. Nove centros urbanos, com capacidade total de 500 mil habitantes, estão sendo construídos num raio de 40 quilômetros da metrópole à beira do rio Yang Tsé. Agora começam a sair os primeiros. E a China, que já era parque de diversões de arquitetos internacionais, está virando o SimCity dos urbanistas.
SimCity? Ele mesmo: o game em que o jogador planeja e governa cidades. O pessoal envolvido com o projeto trabalha como se estivesse jogando SimCity. Nesse jogo você pode instalar construções famosas, como o Big Ben, a Casa Branca e a Torre Eiffel, nas cidades que constrói. E o projeto One City, Nine Towns segue exatamente essa linha: Songjiang é uma cidade inglesa; Anting, alemã; Luodian, sueca. E assim por diante
Continua

Página fonte: Revista Superinteressante